J.Lo ou J.Aff? Por que adotar o sobrenome do marido?

Assim como a estrela pop, maioria das mulheres muda o nome ao se casar. Mas a tradição perde fôlego a cada nova década

O fato passou um pouco despercebido (ou fez menos barulho do que o esperado) na época em que foi divulgada a notícia de que a atriz e cantora Jennifer Lopez tinha dito sim para o astro Ben Affleck.

Os dois se casaram no dia 16 de julho, numa cerimônia de última hora em Las Vegas, tendo poucas pessoas como testemunha. Ao tornar público o casamento, através de uma newsletter (On the JLo) dirigida aos fãs assinantes, Jennifer Lopez não só revelou detalhes da cerimônia dos seus sonhos, como deixou escapar uma novidade ao final da mensagem. Ela se despediu com o seguinte texto: “o amor é uma coisa ótima, talvez a melhor de todas, e vale a pena esperar por ela”. E concluiu: “com amor, Jennifer Lynn Affleck”.

Nesta terça-feira (02/08), na imagem da certidão de casamento do casal, que circulou pelo mundo, veio a confirmação. Depois do casamento, J.Lo se tornou oficialmente a Sra Affleck. Era um desejo antigo, como revelou em entrevista feita 20 anos atrás, na época do primeiro noivado com o ator. Mas daí o noivado desandou, ambos se casaram com outras pessoas e tiveram filhos. Foram se reencontrar em plena pandemia, solteiros novamente.

Mas o que faz uma mulher como ela, que ralou muito para se impor como artista de talento, capaz de cantar, dançar e interpretar (quem sabe até ser indicada para um Oscar), que projeta a imagem de mulher poderosa, querer abrir mão de seu próprio nome?  É uma prova de amor ou ato de submissão, reproduzindo conceitos arcaicos de que a mulher, uma vez casada, pertence ao homem?

Parece inacreditável, mas até 2002, ainda vigorava no Brasil uma lei, que estabelecia que o marido poderia anular o casamento e devolver a mulher à família, caso descobrisse que ela não era mais virgem. Isso estava no Código Civil de 1916 e tratava mulheres casadas como seres incapazes. Mulheres não podiam abrir conta em banco, receber herança ou trabalhar fora sem autorização dos maridos, exigências que caíram somente nos anos 60.

Até março deste ano, o Congresso debatia a necessidade de autorização do cônjuge no caso de uma mulher casada querer, por vontade própria, fazer uma laqueadura. E como se não bastasse, até recentemente, alguns planos de saúde exigiam o consentimento dos maridos para colocação de DIU (Dispositivo Intra Uterino) em suas companheiras, uma prática ilegal, mas que reflete como os ideais do patriarcado estão aí para nos assombrar.

Desde que entrou em vigor o novo Código Civil, em 2002, a adoção do sobrenome do parceiro(a) é possível tanto para homens como para mulheres. Mas quantos homens, do seu círculo de amizade, fizeram isso? Imagino que Ben Affleck, por mais apaixonado que esteja, não tenha cogitado se tornar Ben Lopez.

Com o fim da obrigatoriedade trazida pelo novo Código, cada vez mais mulheres brasileiras demonstram não se empolgar muito em trocar de nome depois de casadas. Segundo levantamento da Arpen-SP, associação ligada aos cartórios, nas últimas duas décadas, o número de mulheres que adotaram o sobrenome de seus companheiros caiu 25% no estado de São Paulo.

Tudo indica que quanto mais madura for a mulher, quanto mais ela tiver uma carreira profissional consolidada, ser dona do seu próprio nariz, menos ela se interessa pela possibilidade de carregar o sobrenome do parceiro. Atualmente, as mulheres se casam mais tarde do que no século passado. Talvez esteja aí a chave para entender a queda.

É compreensível que, nos casos de mulheres que não se dão com suas famílias de origem, que têm suas vidas marcadas por situações abusivas, mudar de nome pode ser uma maneira de deixar o passado para trás em busca de uma nova história.

J.Lo revelou no documentário Halftime (Netflix, 2020), que sua mãe era uma pessoa muito dura. A relação entre as duas nunca foi fácil, mas ela entendia os motivos que levaram a matriarca a criar os filhos de forma rígida. Era uma questão de sobrevivência. Jennifer é filha de porto-riquenhos, nascida e criada no Bronx, bairro da cidade de Nova York.

Suas raízes parecem ser motivo de orgulho para ela. No show do intervalo do Superbowl, em 2020, em que dividiu o palco com a colombiana Shakira, J.Lo fez questão de surgir com uma espécie de manto em que, de um lado, tinha a bandeira dos Estados Unidos. Mas quando abria os braços, na parte interna, via-se a bandeira de Porto Rico. Exibir a bandeira também foi uma crítica ao governo Trump, que separou mais de 500 crianças dos seus pais, imigrantes sem documentos, e as colocou em uma espécie de jaula em centros de detenção.

O nome que carregamos é parte de quem somos, das nossas origens, da nossa identidade. Mas a maioria das mulheres em todo o ocidente ainda parece disposta a abrir mão disso em favor do nome do marido. Como se, com esse ato, as mulheres criassem um vínculo de união para toda a vida.

Ser feliz para sempre é o desejo expresso da estrela pop neste momento de vida, talvez alimentado por tantas histórias de romances, de contos de fada da vida moderna que ela protagonizou nas telas. Irresistível Paixão (1998), O Casamento dos Meus Sonhos (2001), Encontro de Amor (2002), Casa Comigo (2022), em todos esses longas a personagem de J.Lo encontra o homem da vida e a felicidade fica congelada para a eternidade. Fora das telas, ela parece em busca do mesmo desfecho.

Fonte: Terra